Cana-de-açúcar – Por Roberto Cavalcanti

8/8/2016

 

08/08/2016

Um elemento sobrevive na cena histórica do Nordeste desde a colonização: a cana-de-açúcar.
Docemente - ou não - foi em torno dela que nos estruturamos como região.
E a Paraíba, como não poderia deixar de ser, também desenvolveu profunda sinergia com a monocultura. Toda a sua história tem a presença da cana-de-açúcar.
Mesmo em nossos conflitos - a exemplo da invasão holandesa - os canaviais foram em parte preservados. Pois a paralisia da produção redundaria em prejuízo para ambos os lados: invasores e invadidos.
Essa onipresença econômica resistiu a séculos de história e continuava perceptível (ainda que experimentando declínio) quando aqui cheguei, no início da década de 70.
De perto, testemunhei o elo umbilical entre a cana-de-açúcar e o nosso povo. A sociedade plural e sua elite dependiam fortemente desse segmento econômico.
Sobrevoando os anos que antecederam 2016 (período de muitas inconstancias e lamentações), registramos momentos pontuais de reanimações. E até de ânimo e fé, a exemplo do lançamento de programas como o Proálcool.
Muitas empresas foram beneficiadas por políticas de crédito para o incentivo do anidro hidratado (etanol), tirando a dependência absoluta da commodity açúcar.
A gente sabe o que aconteceu depois: o ânimo arrefeceu sob a imposição de leque amplo de inconstâncias - variações de taxas cambiais, retrações de mercado externo e interno, irregularidade das chuvas.
E somente agora - depois de um longo período de instabilidades - os produtores têm motivo para voltar a reanimar a fé.
Dos céus, literalmente, veio o refrigério: estamos tendo um ano extraordinário na regularidade das chuvas, sinalizando para uma moagem acima de 51 milhões de toneladas de cana na região - pelo menos um milhão a mais do que a temporada 2015/2016.
O senão foi, justamente, o mês que acaba de findar. Este julho, só para contrariar e abalar o ânimo, foi o mês mais seco da série histórica. Se agosto não trouxer mais desgosto, porém, os cálculos favoráveis serão mantidos. E a Paraíba - juntamente com os vizinhos Pernambuco e Alagoas - finalmente colherão boas notícias dos canaviais.
Obviamente, o ideal era que os níveis de chuvas estivessem associados a níveis compatíveis de capitalização - corroídos por tantos ciclos de instabilidade.
Não basta, é claro, um ano bom. Precisamos de mais regularidade das chuvas, mais generosidade dos céus.
O setor álcool-açucareiro merece uma serie de pelo menos cinco anos de boas venturas.
A despeito, porém, das interrogações desenhadas no horizonte, temos sim - aqui e agora - com o que nos animar. Especialmente quando se considera que estas conquistas ocorrem em meio a um entorno dos mais conturbados.
Essa resistência justifica o papel que a cana-de-açúcar desempenhou no passado. E explica porque, em pleno século XXI, o pulso da cana-de-açúcar ainda pulsa forte.
Artigo publicado originalmente no jornal Correio da Paraíba em 04/08/2016.
Roberto Cavalcanti - Diretor da Confederação Nacional da Indústria (CNI)


Fonte: UNICA

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