Preço do açúcar recua mesmo diante de previsão de menor oferta no Centro-Sul

4/27/2017

 

Divulgada ontem, a estimativa da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) para a produção de açúcar no Centro-Sul nesta temporada 2017/18 veio abaixo das expectativas da maior parte das consultorias, tradings e até mesmo do governo. Mesmo assim, o que se viu no mercado internacional foi uma intensificação do derretimento das cotações.

A associação, que representa usinas que respondem por cerca de 90% da moagem de cana do Centro-Sul do país, previu que haverá uma redução de 1,2% na produção de açúcar na região neste ciclo, para 35,2 milhões de toneladas. A projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgada na semana passada, apontou 35,5 milhões de toneladas, e as estimativas da maioria das consultorias e tradings sinalizam um volume acima de 36 milhões de toneladas.

Na avaliação da Unica, os investimentos realizados no ano passado para maximizar a produção de açúcar em algumas unidades do Centro-Sul vão apenas evitar uma redução mais drástica na oferta da commodity. E a queda projetada, segundo a entidade, deverá ser puxada pela redução do processamento de matéria-prima. A associação calculou que a moagem de cana recuará 3,6%, para 585 milhões de toneladas, o menor volume desde 2014/15.

Segundo Antonio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da Unica, 30% do aumento da capacidade de produção de açúcar observado se deu em unidades que antes produziam apenas etanol, e os demais 70% são referentes à ampliação da capacidade de cristalização e alterações em equipamentos e processos.

Ao mesmo tempo, os canaviais da região ainda se ressentem da falta de investimentos dos últimos anos. Tanto que iniciaram a safra mais velhos do que um ano atrás, a idade média está em 3,72 anos, ante os 3,55 do começou do ciclo passado.

Apesar da estimativa da Unica, os contratos mais negociados do açúcar demerara na bolsa de Nova York, atualmente aqueles com vencimento em julho, desabaram na sessão de ontem. Por conta de uma liquidação de posições, fecharam a 15,57 centavos de dólar a libra-peso, queda de 4,36% em relação à véspera e menor valor em um ano. Mesmo os papéis para outubro, que têm sido mais demandados agora para a fixação das exportações, fecharam abaixo de 16 centavos pela primeira vez.

"Foi um movimento mais técnico dos fundos do que reflexo de um fundamento. O dado da Unica tem um viés altista e não teria motivo para uma queda tão significativa", ponderou Gabriel Elias, trader da Olam International. De qualquer forma, o fato de a projeção da Unica não ter sido suficiente para pelo menos adiar o movimento dos fundos é sintomático.

Analistas consideram que a queda dos preços chegou a tal ponto que, se continuar, o açúcar perderá atratividade no mix de produção das usinas. "Dada a queda de preço do açúcar hoje [ontem], o etanol já é mais competitivo. Pode ser que muitas empresas desistam da produção de açúcar e se voltem para o etanol hidratado. É um cenário altamente provável", disse Pádua.

Para Fernando Vieira, diretor de açúcar da trading Engelhart Commodities Trading Partners (ECTP), o preço médio do hidratado nesta safra deverá ser equivalente a 14,50 centavos de dólar a libra-peso, uma diferença de menos de 100 pontos sobre os papéis mais negociados do açúcar. "Ninguém força muito a produção de açúcar com essa diferença". Para Vieira, o desestímulo pode ser maior em Goiás e Mato Grosso do Sul, mais distantes dos portos.

Henrique Akamine, gerente de análise de mercado da Czarnikow, considera que uma diferença de cerca de 150 pontos já tornaria o açúcar menos interessante para algumas usinas, especialmente para as que precisam de mais liquidez. "Para a usina receber pelo etanol hidratado, é só carregar o caminhão. Para receber pelo açúcar, a usina só recebe quando embarca".

Cana

A moagem de cana do centro-sul do Brasil deverá cair para 585 milhões de toneladas, estimou a Unica, ante 607,1 milhões em 2016/17 e um recorde de 617,7 milhões em 2015/16

A entidade citou uma menor área colhida e o envelhecimento dos canaviais.

"Os dados apurados... apontam para uma redução de aproximadamente 1,5 por cento na área disponível para colheita em 2017/18. Esse recuo decorre da estagnação da área cultivada e da maior renovação do canavial com plantio de 18 meses", disse a entidade, em seu relatório.

A Unica salientou ainda que deverá haver uma queda de aproximadamente 2 por cento na produtividade agrícola na comparação com o último ano, que alcançou 76,64 toneladas de cana por hectare.

A explicação para a perda de rendimento na colheita está na menor renovação das plantações, e um consequente envelhecimento das lavouras.

Além disso, a safra atual terá menor oferta da chamada cana bisada, que sobra de um ano para o outro.

A cana bisada representou cerca de 8 por cento de toda a colheita de 2016/17, e essas áreas tiveram um rendimento bastante superior à média. Já em 2017/18 a cana bisada não deverá representar mais que 1 por cento de toda a colheita.

A entidade ressaltou, contudo, que o efeito do envelhecimento da lavoura e da menor proporção de cana bisada deve ser atenuado pelas melhores condições climáticas observadas até o momento em diversas regiões canavieiras e pela retomada dos tratos culturais em níveis satisfatórios ao longo do último ano.

Etanol

Neste cenário de menor oferta de matéria-prima e de menor atratividade econômica, a produção total de etanol deverá recuar 3,7 por cento, para 24,7 bilhões de litros, segundo estimativas da Unica.

A produção de etanol hidratado, que compete com a gasolina como opção para donos de veículos flex no Brasil, deverá ser a mais impactada, principalmente após a Petrobras adotar uma política mais flexível para ajustes de preços nas refinarias de petróleo.

A produção de hidratado deverá cair 7,6 por cento em 2017/18 no centro-sul, para 13,86 bilhões de litros.

Já a produção de etanol anidro, que é misturado à gasolina e se beneficia da preferência dos motoristas pelo combustível fóssil, deverá subir 1,7 por cento na nova temporada, para 10,84 bilhões de litros. (Valor Econômico 27/04/2017)

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